Quem foi Dragão do Mar?

Foto/Imagem: Ana Raquel

De Chico da Matilde a Dragão do Mar

VENTOS DE LIBERDADE: QUEM FOI DRAGÃO DO MAR?

Ávida por modernidade, a Fortaleza do final do século XIX tinha sede do novo. Em cafés, saraus e nas páginas de jornal, ideias abolicionistas e republicanas ganhavam força.

É nesse contexto que intelectuais, jornalistas, professores e escritores iniciam a mobilização pró-abolição. Grupos civis abolicionistas se unem às classes trabalhadoras, povo negro e libertos, conquistando apoio popular. 

A Sociedade Cearense Libertadora, criada em 1880, foi uma das principais organizações abolicionistas do Ceará no final do século XIX. A entidade civil atuou não só em Fortaleza, mas buscou articulação com grupos abolicionistas de outras regiões do Estado, ampliando o alcance do movimento pró-abolição. 

Além de arrecadar fundos para comprar alforrias, a Sociedade organizava manifestações públicas, conferências e debates, sempre com forte presença da imprensa local. O jornal Libertador desempenhou papel central na difusão das ideias abolicionistas, influenciando a opinião pública. 

A estratégia decisiva em prol da abolição foi ganhar a adesão dos trabalhadores livres, sobretudo os jangadeiros, força de trabalho essencial para embarque e desembarque de pessoas e mercadorias, já que os navios não atracavam próximo à Praia do Peixe (hoje Praia de Iracema), dada a inexistência de um cais estruturado. 

Sem os jangadeiros, o comércio marítimo em Fortaleza parava. E foi assim que, em janeiro de 1881, liderados primeiramente pelo liberto José Luiz Napoleão, trabalhadores da praia cruzaram os braços, bloqueando o porto de Fortaleza.

Fotopinturas de Júlio Santos
Fotopinturas de Júlio Santos

José Napoleão, líder entre os praieiros do Porto de Fortaleza, enxergou no prático-mor e dono de jangadas Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, legitimidade e comprometimento para substituí-lo na última e decisiva paralisação dos jangadeiros. 

Conhecedor profundo das águas e profissional especializado em manobras de navios, Chico da Matilde detinha conhecimento técnico e gozava de respeitabilidade entre os trabalhadores da praia. Por isso, foi dele a responsabilidade de fazer valer, em 30 de agosto de 1881, o grito coletivo que ecoou na Praia do Peixe (Praia de Iracema) e repercutiu em todo o Brasil: “Nos portos do Ceará não se embarcam mais escravos”.

A greve marcou o fim do tráfico marítimo interprovincial e teve rápido efeito multiplicador. Em 25 de março de 1884, a abolição no Ceará seria alardeada como experiência pioneira no Brasil, quatro anos antes da decretação da Lei Áurea. 

Respeitado por sua coragem e capacidade de liderança entre os heroicos jangadeiros, Chico da Matilde conquistou reconhecimento nacional e passou a ser chamado de Dragão do Mar pela imprensa da época.  

Para além do herói nacional que entrou para a história como “Dragão do Mar”, Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, foi um homem negro e trabalhador comum que desafiou o poder econômico da sociedade escravista para defender a liberdade do povo escravizado.

Sua mãe, Matilde Maria da Conceição, era uma labirinteira de Canoa Quebrada, em Aracati. Perdeu o marido, o jangadeiro Manoel do Nascimento, quando o filho ainda era criança. Órfão de pai, Chico cedo teve que trabalhar para sobreviver, tornando-se menino de recados em navios. À revelia das mais severas dificuldades financeiras, foi a mãe Matilde quem teceu o caráter do filho, sendo seu alicerce moral e afetivo, a mais profunda semente de justiça e compaixão que fez germinar o Dragão do Mar.

Ao se envolver nas greves de janeiro e agosto de 1881, esta última como líder dos jangadeiros e trabalhadores portuários, impedindo o embarque de pessoas escravizadas no Porto de Fortaleza, chegou a ser afastado do cargo de prático-mor. Pós-abolição, já em 1904, ainda se envolveu em outra greve, desta vez contra o recrutamento arbitrário de trabalhadores do porto para servirem na marinha brasileira. De novo, acabou punido, sendo afastado da função. Em ambos os casos, no entanto, conseguiu ser restituído.

Hoje, a herança da escravidão se traduz em estruturas de poder injustas e excludentes. Colonialismo e racismo estrutural são enfrentados com estratégias de resistência dos movimentos negros somadas a políticas públicas de reparação histórica.

Além de Chico da Matilde, o Dragão do Mar, vale destacar quatro nomes representativos da abolição no Ceará:

JOÃO CORDEIRO – Elite intelectual e econômica

Natural de Santana do Acaraú, João Cordeiro rompeu com o comércio de escravos e tornou-se um dos principais líderes do abolicionismo cearense. Presidente da Associação Comercial e atuante no ramo de exportação de algodão, aproximou-se dos debates políticos e dos ideais liberais ingleses.

Foi fundador e primeiro presidente da Sociedade Cearense Libertadora, principal articuladora da abolição no Ceará. À frente da entidade civil, organizou eventos, discursos, arrecadações e compra de alforrias, apoiou greves do porto e fugas de escravizados. Também fundou o jornal Libertador, difusor das ideias abolicionistas.

Sua atuação aproximou a elite liberal da causa e fortaleceu o movimento que fez do Ceará a primeira província a abolir a escravidão, em 1884. Após a abolição e a Proclamação da República, seguiu carreira política, tornando-se deputado federal e senador.

JOSÉ LUIZ NAPOLEÃO – Trabalhadores Livres

Nascido escravizado em Icó, conquistou a própria liberdade em Fortaleza, trabalhando no porto para comprar sua alforria, a de familiares e de outros cativos. Casou-se duas vezes: com Preta Simoa e Luceta Pereira. Ambas lutaram pela abolição.

Foi um dos principais líderes populares a organizar jangadeiros, catraieiros e estivadores em greves que, no início de 1881, bloquearam o embarque de escravizados no porto de Fortaleza. A organização popular foi estratégica para dar fim à escravidão.

Também foi fundador do Clube dos Libertos, organização antiescravista formada por escravos libertos do Ceará, que arrecadava doações, financiava alforrias e defendia práticas legalistas contra a escravidão. O Clube dos Libertos, reuniu grupos sociais minoritários que normalmente não teriam voz pública, dando ao movimento abolicionista cearense um inconteste viés popular.

JOAQUINA FRANCISCA DO NASCIMENTO – Mulheres

Foi uma das mulheres que romperam barreiras ao se engajar na luta contra a escravidão. Primeira esposa de Chico da Matilde, o Dragão do Mar, não restringiu sua atuação a campanhas públicas. Fez parte das redes de apoio que escondiam e abrigavam escravizados em fuga.

Integrante da Sociedade das Cearenses Libertadoras, fundada em 1882 e dirigida por Maria Thomazia Figueira Lima, uniu-se a outras mulheres para estimular e intensificar a mobilização social em prol da abolição. Promoveram eventos beneficentes, financiaram alforrias, concederam cartas de liberdade, mobilizaram pessoas em torno da causa e organizaram ações de alfabetização para escravizados e libertos. 

Apesar da militância e forte atuação das mulheres, a maioria foi silenciada/apagada e poucos registros históricos reconhecem ou detalham a relevância do papel feminino no abolicionismo cearense.

PONSIANO FRANCISCO DE PAULA – Escravos

Em 25 de março de 1881, numa solenidade da Sociedade Cearense Libertadora, Ponsiano Francisco de Paula, escravo trovador, recebeu sua carta de alforria junto a outros 34 cativos. Representando sua classe, discursou e entregou simbolicamente a bandeira da Sociedade à diretoria. 

Pouco se sabe sobre sua vida, mas há indícios de que, após a alforria, manteve-se ativo como trovador popular e apoiador financeiro das campanhas por libertação de pessoas escravizadas.

Há registro no jornal Libertador do dia 1 de janeiro de 1883 de sua contribuição em dinheiro para a compra de alforrias dos escravos no município de Acarape, hoje Redenção, juntamente com José Luiz Napoleão e o Clube dos Libertos. 

Na memória do abolicionismo, a produção intelectual negligenciou experiências dos negros escravizados. Ponsiano simboliza o apagamento e o esforço por recuperar essas histórias.